O que levou grandes empresas à recuperação judicial entre 2022 e 2026?
Juros elevados, crédito restrito, consumo pressionado e erros de gestão formaram a tempestade perfeita para companhias tradicionais
Por Rogério Clemente de Oliveira
O crescimento dos pedidos de recuperação judicial no Brasil entre 2022 e 2026 não pode ser explicado por um único motivo. O que aconteceu foi uma combinação perigosa: empresas muito endividadas encontraram uma economia marcada por juros elevados, crédito mais seletivo, custos operacionais crescentes, perda de poder de compra das famílias e mudanças profundas no comportamento do consumidor.
Nesse ambiente, companhias conhecidas como Americanas, Light, Oi, Grupo Petrópolis, 123Milhas, Polishop, Coteminas, Bombril, Ambipar, Estrela, Tok&Stok, Casas Bahia, Marabraz e Habib’s recorreram à Justiça para reorganizar seus passivos e tentar preservar as operações.
Apesar das diferenças entre os casos, existe um ponto em comum: quando o dinheiro fica caro por muito tempo, empresas endividadas perdem espaço para respirar.
Recuperações judiciais alcançaram níveis históricos
Em 2024, o Brasil registrou 2.273 pedidos de recuperação judicial, crescimento de 61,8% em relação a 2023 e o maior resultado da série histórica da Serasa Experian. As micro e pequenas empresas responderam por 1.676 requerimentos, seguidas pelas médias, com 416, e pelas grandes companhias, com 181 pedidos.
O movimento continuou em 2025. Segundo a Serasa Experian, 2.466 CNPJs estiveram envolvidos em processos de recuperação judicial, número 13% superior ao registrado no ano anterior.
Os dados mostram que a crise não ficou limitada às grandes empresas que aparecem no noticiário. Ela atingiu milhares de negócios menores, muitas vezes sem patrimônio, estrutura financeira ou acesso a investidores para enfrentar períodos prolongados de dificuldade.
Fontes: “Serasa Experian — pedidos registrados em 2024” (https://www.serasaexperian.com.br/sala-de-imprensa/indicadores/brasil-registra-22-mil-pedidos-de-recuperacao-judicial-em-2024-o-maior-numero-da-serie-historica-aponta-serasa-experian/) e “Serasa Experian — empresas em recuperação em 2025” (https://www.serasaexperian.com.br/sala-de-imprensa/indicadores/recuperacoes-judiciais-avancam-no-brasil-e-atingem-25-mil-empresas-em-2025-maior-nivel-da-serie-aponta-serasa-experian/).
Juros elevados: o peso que esmagou o fluxo de caixa
A taxa Selic permaneceu em níveis elevados durante grande parte do período analisado. Isso afetou diretamente empréstimos, capital de giro, antecipação de recebíveis, financiamentos e renegociações bancárias.
Em julho de 2026, a taxa média do crédito livre chegou a 49,8% ao ano, conforme dados do Banco Central. Evidentemente, cada empresa contrata crédito em condições diferentes, mas o indicador revela o grau de restrição financeira enfrentado pelo mercado.
Quando a Selic sobe, as instituições financeiras aumentam suas taxas, tornam a concessão de crédito mais rigorosa e exigem maiores garantias. Empresas que antes conseguiam renovar dívidas passam a encontrar empréstimos mais caros, prazos menores e limites reduzidos.
O próprio Banco Central reconhece que a elevação dos juros reais tende a reduzir investimentos e consumo. Essa é justamente uma das formas pelas quais a política monetária procura controlar a inflação. O remédio pode ser necessário para conter os preços, mas possui efeitos colaterais duros sobre empresas endividadas.
Fonte: “Banco Central — estatísticas monetárias e de crédito” (https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticasmonetariascredito).
O papel da política econômica e do governo
É legítimo questionar a influência das decisões governamentais nesse cenário. A condução da política fiscal, o crescimento das despesas públicas, a trajetória da dívida, a previsibilidade das regras e a confiança dos investidores afetam as expectativas de inflação, os juros futuros, o câmbio e o custo de financiamento.
Quando o mercado percebe aumento do risco fiscal ou dificuldade para equilibrar as contas públicas, tende a exigir juros maiores para financiar o governo e as empresas. Esse movimento encarece toda a economia.
Também pesam sobre o ambiente empresarial:
– complexidade tributária;
– insegurança jurídica;
– mudanças frequentes nas regras;
– elevado custo de conformidade;
– burocracia;
– dificuldade de planejamento de longo prazo;
– defasagens na infraestrutura;
– carga de impostos incidente sobre consumo, produção e folha de pagamento.
Entretanto, seria tecnicamente incorreto afirmar que o governo, sozinho, causou todas as recuperações judiciais.
A taxa Selic é definida pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central, instituição que possui autonomia formal. Além disso, empresas como Americanas, Oi, 123Milhas e outras apresentaram problemas específicos relacionados à governança, endividamento, modelo de negócios, controles internos ou decisões tomadas ao longo de vários anos.
A política econômica criou um terreno extremamente difícil. Mas, em muitos casos, a fragilidade já estava dentro da empresa antes de a tempestade chegar.
A economia cresceu, mas nem todos cresceram juntos
O Produto Interno Bruto brasileiro avançou 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. Portanto, não se pode dizer que o país tenha atravessado uma recessão generalizada durante todo o período.
O problema é que o crescimento foi desigual.
Em 2025, o consumo das famílias aumentou apenas 1,3%, uma desaceleração expressiva diante da alta de 4,8% registrada em 2024. Na prática, diferentes setores enfrentaram realidades muito distintas.
Fonte: “IBGE — PIB de 2024” (https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/42775-pib-fecha-2024-em-3-4-e-registra-maior-taxa-desde-2021) e “IBGE — PIB de 2025” (https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45969-pib-cresce-2-3-em-2025).
Empresas dependentes de móveis, eletrodomésticos, viagens, alimentação fora do lar e outros gastos adiáveis sentiram mais intensamente a redução da renda disponível e o encarecimento do crédito.
Uma família pode adiar a compra do sofá, do eletrodoméstico ou da viagem. A empresa, porém, não consegue adiar indefinidamente o aluguel, a folha de pagamento, os tributos e as parcelas das dívidas.
A herança da pandemia continuou no balanço
Diversas empresas chegaram a 2022 carregando passivos acumulados durante a pandemia. Houve renegociação de aluguéis, postergação de impostos, contratação de empréstimos emergenciais e aumento das dívidas com fornecedores.
Com a normalização das atividades, parte do mercado esperava uma retomada rápida e permanente do consumo. Porém, a inflação, os juros e a mudança dos hábitos dos clientes dificultaram essa recuperação.
Muitas empresas passaram a enfrentar simultaneamente:
– dívidas antigas vencendo;
– necessidade de capital de giro;
– aumento dos custos;
– queda das margens;
– competição digital;
– despesas com lojas físicas;
– dificuldade para repassar preços;
– redução da capacidade de investimento.
A conta represada chegou. E chegou com juros.
Varejo tradicional perdeu espaço e margem
O comércio foi um dos setores mais afetados. O crescimento das plataformas digitais, a concorrência de importados, a mudança no comportamento do consumidor e os custos de grandes estruturas físicas colocaram redes tradicionais sob forte pressão.
Casas Bahia, Marabraz, Polishop, Dia Brasil e Tok&Stok possuem histórias e estruturas diferentes, mas enfrentaram elementos semelhantes: crédito caro, consumo mais seletivo, despesas elevadas e necessidade de adaptar rapidamente suas operações.
Empresas antigas não quebram necessariamente por falta de marca. Muitas entram em crise porque sua estrutura foi construída para um mercado que já não existe da mesma maneira.
Endividamento elevado transforma queda de vendas em crise financeira
Uma empresa com pouca dívida pode suportar alguns meses de queda no faturamento. Uma companhia altamente alavancada precisa gerar caixa continuamente para pagar juros e amortizações.
Quando as vendas diminuem, a empresa corta investimentos, reduz estoques, fecha unidades e tenta renegociar suas obrigações. Se a renegociação não for suficiente, a recuperação judicial surge como instrumento para suspender cobranças, reunir credores e apresentar um plano de pagamento.
Recuperação judicial não significa falência. Também não representa garantia de sobrevivência. É uma tentativa de reorganização sob supervisão da Justiça.
Má gestão e falhas de governança também precisam entrar na conta
O cenário econômico não pode servir como desculpa automática para todos os problemas empresariais.
Algumas companhias cresceram sem controles adequados, assumiram dívidas incompatíveis com a capacidade de geração de caixa, fizeram investimentos de retorno duvidoso ou demoraram para reconhecer a deterioração dos negócios.
Entre os principais problemas internos encontrados em empresas em crise estão:
– ausência de planejamento financeiro;
– decisões baseadas apenas no faturamento;
– confusão entre lucro contábil e disponibilidade de caixa;
– excesso de endividamento de curto prazo;
– falhas de controles internos;
– baixa qualidade das informações contábeis;
– expansão sem capital suficiente;
– resistência em reduzir estruturas deficitárias;
– falta de transparência com credores e investidores.
Juro alto derruba empresas frágeis primeiro. Mas uma gestão financeiramente imprudente consegue transformar até um período de crescimento econômico em crise.
Reforma Tributária amplia a necessidade de planejamento
A transição para IBS e CBS acrescenta uma nova camada de atenção. As empresas precisarão revisar preços, contratos, sistemas, cadastros, fluxo de caixa e aproveitamento de créditos.
A Reforma Tributária procura simplificar o sistema no longo prazo, mas o período de adaptação poderá gerar custos e incertezas. Empresas que já enfrentam margens reduzidas ou elevado endividamento terão menos espaço para absorver erros de implantação.
A contabilidade deixará definitivamente de ser apenas uma obrigação operacional. Ela deverá funcionar como instrumento de prevenção, simulação e tomada de decisão.
Afinal, quem causou essa onda de recuperações?
Não existe um único culpado.
O ambiente econômico e governamental contribuiu por meio dos juros elevados, do crédito restrito, da complexidade tributária, da insegurança regulatória e das dúvidas sobre a trajetória fiscal. Esses fatores reduziram investimentos e aumentaram o custo de sobrevivência das empresas.
Ao mesmo tempo, vários grupos chegaram à crise carregando problemas próprios: endividamento excessivo, controles deficientes, modelos de negócios desatualizados e decisões gerenciais equivocadas.
A conclusão mais honesta é direta: o poder público ajudou a formar o ambiente adverso, mas a condição financeira e a qualidade da gestão determinaram quais empresas estavam mais vulneráveis.
Conclusão
A recuperação judicial não começa no protocolo apresentado ao tribunal. Ela começa muito antes, quando o caixa deixa de acompanhar as obrigações, os juros consomem a margem e a administração adia decisões difíceis.
O grande ensinamento do período de 2022 a 2026 é que faturamento, tradição e reconhecimento de marca não garantem continuidade.
Empresas sobrevivem quando mantêm liquidez, controles, governança, capacidade de adaptação e planejamento. Em tempos de crédito caro, improvisação financeira não é coragem. É risco.
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